10/08/2015

Filme: "Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)"

"Vou contar uma história. Na verdade é imaginação. Abra bem os seus olhos. Pra escutar com atenção. É coisa de Deus e Diabo. Lá nos confins do sertão."

"Deus e o Diabo na Terra do Sol" é uma obra-prima do cinema nacional dirigido por Glauber Rocha. O lançamento aconteceu em 1964 e recebeu o prêmio de Melhor Filme Ibero-Americano no Festival de Cinema de Mar del Plata e foi indicado ao Palma de Ouro no Festival Internacional de Cannes.

Este filme entrou para minha lista dos Top 5 do cinema nacional, filme incrivelmente envolvente, a trilha sonora casa perfeitamente com a trilha sonora. Sem dúvida, foi um marco para o cinema brasileiro e merece toda a importância que tem, tanto a obra quanto o diretor.

No sertão nordestino, vivem Manuel (Geraldo Del Rey) e sua esposa Rosa (Yoná Magalhães), camponeses pobres que, explorados, pressionam Moraes (Milton Rosa), o grande proprietário das terras. Humilhado por este, Manuel acaba matando seu patrão e, em seguida, foge com a mulher.
O casal encontra refúgio em Sebastião (Lidio Silva), uma homem considerado 'iluminado', conhecido por 'beato, o Santo', que promete aos pobres o paraíso sobre a terra. Entretanto, ao vê-lo sacrificar uma criança, Rosa o mata. O casal é, mais uma vez, obrigado a fugir.
Ao encontrar o famoso cangaceiro Corisco (Othon Bastos), este lhes oferece refúgio. Corisco se diz um defensor incansável dos pobres e um inimigo jurado dos ricos. Corisco não invoca Deus, como fazia 'o Santo', mas também viola, mutila e mata pessoas.
Manuel compreende, enfim, que Sebastião e Corisco são as duas faces de uma mesma violência, exercida em nome de Deus ou em nome do Diabo. Ele pensa em matar Corisco, mas sua mulher, influenciada por Dadá (Sônia dos Humildes), esposa do cangaceiro, faz com que ele desista da ideia.
É Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um mercenário a mando dos coronéis e da Igreja, quem mata Corisco, como teria feito com Sebastião, se Rosa não tivesse se adiantado.
Manuel, enfim livre de uma mitologia paralisante, continua a perseguir o seu ideal de que um dia 'a terra será do homem, não de Deus, nem do Diabo'.
Aqui, não estamos diante de um mero entretenimento, mas de uma poderosa ferramenta de compartilhamento e defesa de ideias, mostrando o retrato de um segmento da rica cultura brasileira, com ênfase para aspectos delicados como religião, fé, violência e exploração econômica.
"Deus e o Diabo na Terra do Sol" é um filme nacional de excelente qualidade, com fotografia em preto-e-branco belíssima e músicas do compositor Villa-Lobos. Com relação ao título, aliás, além de belo, poético e evocativo, ajuda muito na compreensão do mesmo, de uma forma inclusive bastante dialética. Ao prestarmos atenção nos personagens, encontraremos as figuras mencionadas no mesmo.
É fascinante como a narrativa vai ganhando forma, tudo vem com seu tempo, seguindo o ritmo certo, de acordo com a busca dos personagens por seus objetivos, sejam uma vida melhor, um milagre, ou uma vingança, e quando damos conta, algo aconteceu, mudando drasticamente a vida de cada um dos envolvidos.
"Deus e o Diabo na Terra do Sol" é um clássico nacional que tenho orgulho em recomendar para todos. "Bora logo, tenho nada pra levar, a não ser o nosso destino."

Mais detalhes do filme na página do IMDb

Duração: 120 minutos
Gênero: Drama, Aventura, Nacional, Clássico
Classificação: 14 anos
Minha Nota: 10,0