12/05/2015

Filme: "Alabama Monroe (2012)"

"Ninguém pode ser tão feliz. A vida não é assim."

Assistir "The Broken Circle Breakdown" foi uma experiência mágica, única na minha vida, e mesmo que eu consiga assistir 10 mil filmes, ainda carregarei comigo para onde for, todas as sensações que senti ao assisti-lo. São tantas sutilezas que fui pega de surpresa, aos poucos foi me envolvendo e quando percebi já estava dentro do filme, consegui sentir a intensidade do amor, o amargor da perda, a tristeza pelos sonhos dilacerados, sempre embalada pela magnifica trilha sonora country. 

Acredito que a principal função do cinema seja exatamente isso, transportar o espectador para dentro da trama e fazê-lo absorver aquilo que há de melhor, seja o amor, sofrimento, superação, fé, perdas, alegrias, tristezas e esperança. 

Essa belíssima obra belga foi dirigida por Felix van Groeningen, o roteiro escrito pelo próprio diretor em parceria com o roteirista Carl Joos, sendo baseado em uma peça de teatro, escrita por Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels. Foi lançado em 2012 e concorreu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Conhecemos Didier (Jonah Heldenbergh), músico de uma banda de bluegrass, música popular americana dos anos 40, considerada a raiz do country que valoriza o bandolim, o banjo, o violino, além dos vocais harmônicos.
Para ele. o Estados Unidos é o lugar perfeito, onde os sonhos podem ser realizados. Com um estilo cowboy, barba e cabelos compridos, mora num trailer dentro de um rancho em que herdou da família. Ele é um ateu romântico completamente apaixonado pela música.
A tatuadora Elise (Veerle Baetens) arrebata o coração deste homem, e não demora muito para que se casem. Ela é religiosa, porém mais realista e ao mesmo tempo mais esperançosa com a vida.
Inicialmente, Didier fica incomodado com a rapidez que as coisas aconteceram, principalmente a gravidez de Elise, que pega-o de surpresa, mas ele acaba reformando a casa e o que vemos é uma linda família rodeada de bons amigos e música boa.
Mas a vida desse casal apaixonado muda drasticamente quando a filha de seis anos, Maybelle (Nell Cattrysse), fica doente, muitos questionamentos surgem nessa relação. 
As cenas no hospital são imensamente tristes, ter de lidar com uma doença tão ingrata na idade de Maybelle despedaça o coração de qualquer espectador.
Em determinado momento, Maybelle pega um pássaro morto e pergunta para onde ele vai, Didier se recusa a dar qualquer explicação que sirva de alento, afinal, isso iria contra a sua forma de pensar. Para ele depois da morte só existe a escuridão. Um vazio total.
A desconstrução da ideia que ele faz dos Estados Unidos acontece quando assiste na TV que a religião barra as pesquisas das células tronco. A doença de Maybelle vai se agravando a cada dia e o casal começa a se distanciar. 
A partir de um determinado momento, o casal não consegue mais se encontrar e Elise muda o nome para Alabama e seu controle emocional não sustenta os ataques descrentes de Didier. E o desfecho nos mostra o quanto é perigoso destruir o meio de defesa das pessoas.
A forma não linear da narrativa, ora no passado, ora no presente, é editada brilhantemente, e ajuda a mostrar mais a fundo a personalidade de cada personagem. A fotografia também é belíssima, a região de Ghent, na Bélgica, é retratada de forma delicada com tons suaves nos momentos mais poéticos da narrativa e tons carregados em instantes mais obscuros. Algumas das cenas mais tensas são atenuadas de acordo com as nuances que casam perfeitamente com as trilhas executadas, que por sinal, são músicas perfeitas.
"Alabama Monroe" talvez seja o filme mais tristemente belo que já assisti, um drama que mescla dor, música, vida, morte, e que ainda discorre por questionamentos religiosos. É um filme emocional que toca nas profundezas do coração e fica gravado como tatuagem, para jamais ser esquecido.
"Esta pequena estrela é, na verdade, um sol. Um sol que está muito, muito longe. Sua luz tem que viajar um longo caminho, por um longo tempo, para alcançar teus olhos. Então, é possível que essa pequena estrela já tenha desaparecido antes que a sua luz chegue aqui. É quando você vê algo que não está mais lá. Só que isso não importa, porque a luz dessa pequena estrela continua viajando para além dos seus olhos. Sempre mais. E essa pequena estrela vai existir para sempre. Para todo o sempre." Trecho em que Didier conversa com Maybelle no hospital numa das cenas mais emocionantes do cinema contemporâneo.
Mais detalhes do filme na página do IMDb

Duração: 111 minutos
Categorias: Drama, Romance, Musical, Indie
Classificação: 16 anos
Minha Nota: 10,0

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